A DEPRESSAO DA SEXTA-FEIRA SANTA.

Na sexta-feira santa era praticamente proibido existir. 
Na minha infância em Ijuí, a sexta-feira santa era um dia pra esquecer. Triste, silenciosa, deprimida, suicidada de si.
A sexta-feira santa feria a minha infância com lança de romano e corda de judas. Era proibido sorrir, brincar, correr, falar alto. Praticamente, era proibido existir. Como se o ano ficasse em suspenso, pendurado no calendário, esperando desesperadamente pelo sábado.
A sexta-feira santa da minha infância era pintada de roxo, como os panos que enfeitavam a igreja, cobrindo os santos e as galas. Roxo de tristeza dum pai fazer isso com um filho. Roxo de vergonha do dedo-duro do judas e do dedo pra cima pró Barrabás. Roxo da ladainha do ato de contrição meu-jesus-crucificado-por-minha-culpa.
Minha culpa?- eu pensava. Mas eu nem estava lá, nem conhecia esse cara!- me indignava. Claro que eu só pensava, não dizia, prudentemente adivinhando que levaria uma latida, uma rosnada, quiçá um tapa na orelha pela heresia.
A sexta santa tinha cheiro de incenso. Na minha imaginação, algo que vinha diretamente das profundezas do inferno, eu podia adivinhar que o inferno devia malcheirar assim, acremente, arranhando as narinas e as tripas.
A gente olhava ao redor e os adultos estavam lá, todos fazendo cara de triste. Meu Deus, eu pensava, mas quanto tempo faz que esse Jesus já morreu e o povo ainda fica assim? Credo!
Nem o velho amigo Hitachi sorria. As rádios passavam o dia tocando música tão triste que, caso você ainda estivesse um tiquinho alegre, acabava por ficar deprimido, de vez, dado que eles pegavam pesado na escolha do repertório e o querido ouvinte, nem que não quisesse, se ia juáaaa tristeza abaixo.
A única coisa feliz da sexta-feira santa é que era o único dia do ano que meu pai cozinhava. Ele expulsava todo mundo da cozinha e lá ficava preparando um panelão com a sua famosa e deliciosa moqueca à João Craidy, que misturava o norte e o sul em um ensopado com peixe pimentão batata cebola tomate e azeite de oliva de lamber os beiços. Bendito paizinho! Salvava a gente de morrer por completo naquelas sextas feiras prozaquentas.
Afora isso, a gente ficava, pra lá e pra cá, feito pêndulo do relógio da sala, torcendo praquela pretura de dia acabar logo e chegar o domingo da páscoa quando, enfim, todos ficavam alegres porque, afinal, o coelhinho tinha ressuscitado e trazido muitos ovos pra gente finalmente poder ser feliz de novo.
( Graca Craidy)
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