Das vantagens de ser filho do meio.

Eu sou a tadinha-de-mim número 2.
Outro dia alguém veio me reclamar com um beiço deste tamanho que era filho do meio, mimimi mimimi mimimi. Cortei o assunto com mil argumentos contrários e te lo juro que não foi pra consolar. Digo mais: não falei por ouvir dizer. Ninguém me contou. Não li em lugar nenhum. Eu sou filha do meio, beibe. Para ser mais exata: a segunda, de quatro filhos. Isto é, do meio, mesmo. Como dizia um amigo meu: eu sou a tadinha-de-mim número 2.

Sim, porque depois de Freud, Édipo e Electra, é até um tédio essa história de filho com pai-mãe: os culpados são sempre os mordomos. Não falta um baú de choramingos do que ficou a mais ou a menos na educação que receberam.

Filho sempre acha que foi pouco.
Não basta carregar o alienzinho na barriga apertando tudo lá dentro, empurrando tripa, rins e coração pra fora do lugar, crescendo dia após dia, pesando, cansando, e depois de nove meses causando uma hecatombe pra nascer, seja por parto anormal  (na minha concepção, todo parto é anormal, haja vista a desproporção do que se pare e por onde se pare) ou cesariana. Não. Não basta. Ainda tem que passar anos limpando fralda, dando de comer, beber, etc. Enfim, todo o kit que acompanha Edipos e Electras.

Não basta também sustentar aquela boquinha de jacaré sempre com fome, comprar roupa, videogame, pagar estudos, escolinha de futebol, inglês, balê, ritalina e tudo mais. Eles sempre vão achar que foi pouco, ou que foi errado, ou que foi menos do que mereciam ou precisavam.

Você é um filho do meio bem resolvido?
A não ser que você seja um filho do meio bem resolvido. Resolvido na marra, claro. Porque cedo na vida, muito cedo, mesmo, você descobre que chegou tarde pra festa de primogênito e cedo demais pra festa do caçula. No entremeio do filho do meio não tem festinha, já sabe, né? Também não tem albinho de teste do pezinho, mechinha de cabelo com fitinha, palavrinhas que pronunciou pela primeira vez, presentes que ganhou, nem foto de primeira comunhão, nem aquelas de cinco poses uma chorando.

Não. Neca de pitibiribas. Pai e mãe de filho do meio estão sempre exaustos, já caíram na real da trabalheira desgraçada que dá um filho, já não têm mais forças nem pra juntar a chupeta do chão e lavar com água fervida. Nhé! O que não mata, engorda! Quando muito, limpam esfregando a chupeta na roupa. Quando muito.

E assim o gurizinho, a guriazinha já cresce fortinho, desde cedo, sobrevivente imune às bactérias do chão e de todos os lugares nojentos e perigosos onde uma criança costuma transitar.

Primeira batalha, um a zero pro filho do meio.

Vantagem: ninguém dá bola pra você.
A outra vantagem é que ninguém dá muita bola pra você. Por isso também ninguém pega muito no seu pé. Porque, afinal, você quase não existe, né? É uma assombraçãozinha que se cria a la cria no vai do vento.

Entonces, você filho do meio - se não for um chantagistinha pentelho mas um garoto esperto e atento às oportunidades - logo se dá conta, exultante, de que como você é invisível, você tem o salvo-conduto dos invisíveis: você pode ir e vir para qualquer lugar, qualquer, mesmo, que ninguém vai encher o seu saquinho, tampouco reparar que você foi. Ou voltou.

Que a minha mãezinha não nos ouça, mas eu me lembro muito bem, por exemplo, de ir à matinée do Cine Serrano domingo, a meia quadra da minha casa, sozinha, com uns  7 anos de idade. E ninguém não tava nem aí pra minha perigosa incursão. Eu pagava a entrada do cinema com selo de carta, que eu achava nas gavetas da minha vó, atravessava a rua, ia ao cinema, comprava a entrada e assistia ao meu Jim das Selvas, meu Joselito, minha Marisol, meu Tarzan. Eu e Deus. Na buena. Lá pelas 4 da tarde, acabava a sessão, eu atravessava a rua de volta e atinava que ninguém tinha se dado conta da minha ausência. Eba! Ninguém pra pôr a mão no peito e sair ofegante pela casa: - cadê a Graça??? Não. Filho do meio, lembra?

Filho do meio é um estrategista.
Outra vantagem de ser filho do meio é que você, por passar desapercebido, pode fazer as coisas mais horríveis e proibidas do planeta e ninguém perceber. Porque se você é um filho do meio inteligente você já deve ter notado que é melhor não bater com ninguém de frente, não dar na vista, não contrariar, não emitir opiniões polêmicas. Apenas observar. Muito. Quem manda em quem. Quando. Por que. E elaborar estratégias muito bem elaboradas. Seja em prol de si próprio ou contra algum irmão. Maior ou menor. Importante planejar tudo com muito cuidado.

Por exemplo: se pai ou mãe diziam categoricamente é proibido fazer tal coisa, era o que bastava pra assanhar as lombrigas do filho do meio. Cedo ou tarde, pai ou mãe iam se distrair e filho do meio faria e-xa-ta-men-te o que era proibido. Na maciota. Na calada. Bem quietinho, sem ninguém saber. Filho do meio não tem cúmplices, não confia em ninguém para atos tresloucados, é um andarilho audaz e solitário. Carreira sempre solo.

Carreira sempre solo.
Lembro que disseram que o livro Senhor Embaixador do Érico Veríssimo era proibido de criança ler. - Terminantemente! sublinharam. Sei!...Na primeira oportunidade, olha a Gracinha folheando curiosa página por página do Senhor Embaixador até descobrir por que ele estava proibido para menores. Ahá! Achei, bem lá no finzão. Deve ser isso, me lembro que pensei. O cara fala que vai doar os cojones dele. Cojones? Hummm! Acho que eu não sabia o que queria dizer cojones, tampouco carajo, mas deduzi - criança é maliciosa de nascença, não sei porque falam que criança é inocente - que devia ser nome feio, bagaceirice. Pronto! Fechei o livro, coloquei cuidadosamente de volta na gaveta da mesa de cabeceira do meu pai e saí, triunfante, cochichando mentalmente cojones, cojones, cojones.

É bom ser filho do meio porque ninguém espera grandes coisas de você. Grandes coisas, quero dizer assim como esperam do filho primogênito, Deus me livre o que pai e mãe e família esperam de filho primogênito. Até entendo o cara aquele da Bíblia ter trocado sua progenitura por um prato de lentilhas. Barra pesadíssima, meu irmão!

Filho do meio é livre pra ser o que quiser.
De filho caçula, também, esperam uma coisa muito estranha, não sei se é impressão minha, mas não parece que eles esperam que o caçula não cresça nunca, que nem o Peter Pan? Digo isso porque o sujeito que é o caçula pode ter 80 anos de idade e todo mundo da família ainda fala olhando pra ele como se fosse um bebê: - é o nêne! Confesso que prefiro ser do meio. Já que ninguém espera nada de você, você é livre para ser o que quiser. Não é muito melhor?

De modos que se acontecer de você cruzar com filho do meio choramingando por aí que meu pai isso, que minha mãe aquilo, que meus manos aquiloutro, lembre de mim. E não acredite, meu bem! (Graça Craidy)

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10 comentários:

  1. Fernando Trachtenberg escreveu:

    Hahaha...lembrei de mim! Também tive a sorte de ser filho do meio Gracinha. E como dizia pra debochar em casa: filho do início, do meio, e do fim do mundo.

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  2. João Craidy escreveu:

    não perco um blog teu. inteligentes e criativos. parabéns, prima

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  3. Guety Berni escreveu:

    Adorei, Gracinha!!

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  4. Esperta desde pequenina! Adoro teus escritos!
    Beijos, conte Gracinha.

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  5. Vera Peres escreveu:

    O que se pare e por onde se pare, sensacional!!!!!

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  6. Elisangela Todeschini escreveu:

    Li o post e concluí que o reclamão beiçudo é pouco inteligente, pois não fez uso da capa da invisibilidade que é concedida aos filhos do meio.... kkkkk. Doce infância a minha, terceira de seis!!! 😇

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  7. Patrizia Donatella Streparava escreveu:

    . Sensacional. Só discordo da festa do primíparo, que cá na minha abalizada opinião, somos é um tubo de ensaio.

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  8. Ciloé Maria Burmann escreveu:

    Deliciosos, divertidos demais teus escritos!!!

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  9. ei, graça música,
    eu tenho um amigo, nordestino, filho
    do meio de uma família de 17,
    como sofre na vida o rapaz!...
    muito bom esse seu escrito.
    beijo
    zeca

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