Selfies à cata de si.

Em busca de notoriedade a todo pano.
Eu! Eu! Eu!

Não pode ser mais egocêntrica, tediosa e retrato descarado do tempo atual autolambente de umbigo que a moda de selfie grassando em todo e qualquer espaço, da praça pública aos lençóis das alcovas recém mergulhadas nos gemidos de múltiplos orgasmos.

Li hoje uma nota bizarra sobre selfie na capa de um desses portais de internet que misturam notícias com bobagens no mesmo embalo visual e de tratamento de texto, de tal maneira que você volta e meia se pega lendo uma estultície acontecida dentro de novela, de reality-show, de Instagram ou de viral de You Tube como se fosse, de fato, acontecimento relevante e fundamental para a sua vida. 


Até tu, Obama?
(Lembrei dos sapientíssimos filósofos Jean Baudrillard e Guy Debord, que apontam, entre outros insights: um, não importa mais se a notícia é verdadeira ou falsa, apenas que ela esteja no ar - diz Baudrillard; e, dois, não há mais História: a única história que vige ainda é a da humanidade patinando emburrecida na falsa história do consumo, da propaganda - no caso da selfie, digo eu, da propaganda de si - e que o único novo na História é o Novo! de lançamento de produtos - diz Debord. Pífia novidade.)

A notícia bobajosa do tal portal dava conta de que o último grito, a coisa mais atual e atrevida e pós-moderna e de vanguarda em matéria de selfies, agora, é publicar nas redes sociais a selfie do casal imediatamente após o clímax de suas investidas sexuais. 


 Gozou, fotografou, postou! 

Ui! O meu gozo é mais bonito do que o seu. Ai! O meu gozo é mais gozado que o seu. Ui! O meu gozo contém mais espermatozóides, flavonóides, molóides e bestóides que todos os outros gozos. 
Semen, suor e celular.

Olhei a foto estarrecida com a notícia e o que vi me deixou mais estarrecida ainda: um casal normal, nem bonito nem feio, com a deslavada cara do mais paquidérmico bovino e bovina, posava com um leve ar cansado e sem o mínimo dos mínimos sex-appeals, conquistando seus 15 minutos de fama à custa de semen, suor e celular.

Deus meu! Mas essa gente nunca mais na vida vai parar de expor seus avessos nas redes sociais? Nunca mais vai parar de botar a bunda na janela pra um vir e passar a mão nela, como cantava o Gonzaguinha?,

Não. Nunca mais. Senta e chora. 

Todo mundo já revelou se é gay, hetero, casto, hermafrodita ou se não tá nem aí pra sexo. Todo mundo já fotografou a comida que come, o dejeto que dejeta, o cachorro, o pai, a mãe, o sushi, o churrasco, a florzinha. Até retratinho de criança que ainda nem nasceu foi pra porta-retrato. E nós todos estamos ficando com o braço cada vez mais comprido, aleijados de tanto selfiezar.


Manipulados pela Samsung.
Ellen DeGeneres, a sem-graceza em pessoa da humorista americana que apresentou o Oscar este ano, se achou a mais engraçadinha do planeta. 

Não bastou mandar trazer pizza pra comer com a mão e engordurar os Armanis, Guccis e quetais das musas do cinema. Culminou a sua pseudo intimidade e falsa informalidade performática convidando famosos para uma selfie patética onde celebridades do mais alto nível como a maravilhosa Meryl Streep, o fantástico Kevin Spacey, mais Brad Pitt e Julia Roberts, entre outros, se acotovelavam ridiculamente pra sair na foto, pra parecer que são cool como a sem-cerimônia do Oscar queria fazer de conta. 

Parecia cool. Mas, tudo na verdade não passou de uma armação da Samsung, patrocinadora da cerimônia, para promover o seu novo smartphone. 

Debord na cabeça!
Da praça pública aos lençóis

Selfie, aliás, tão ridícula que virou meme já no minuto seguinte, multiplicada em centenas de bobagens para sublimar o riso que já nem se sabe mais se é de dentes ou esgar.

Estamos feito cachorros mordendo o próprio rabo, em busca de uma notoriedade a todo pano, talvez porque o que andamos colhendo dos nossos dias não mata nossa fome. 

Então, é preciso escarafunchar no ego, no id, nas tripas, selfiezando a vida pra ver se um alien rasga nossas vísceras e sai de dentro trazendo sangue de verdade e nos fazendo, quem sabe, de novo humanos, desconsumizados de nós mesmos. Argh! (Graça Craidy)

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