Tio de cliente morto não paga.

O cliente era um judeu sefaradi daqueles self-made-man feitos à facão. O que tinha de dinheiro, tinha de tosco. Era um cliente novo, a reunião estava marcada para terminar pontualmente às 13 horas, e ele já havia reiteradamente avisado que não ficaria um minuto a mais, pois precisava ir ao enterro de um tio, exatamente naquele horário. OK. Não seríamos nós a atrapalhar suas lides familiares, inda mais em se tratando de morte.

Sabedora disso, marquei minha consulta trimestral com o médico homeopata para as 14 horas, entendendo que uma hora seria tempo suficiente para sair da reunião e atender ao compromisso com o médico, aliás caro e superdisputado. Conseguir aquela horinha tinha sido um extremo ato de boa vontade de sua secretária.

A reunião tinha quatro pessoas: a diretora de atendimento, a assistente, o cliente e, da criação, eu. O motivo: coletar as informações do briefing para divulgar a rede de lojas de brinquedos. Conversa vai, conversa vem, nós anotando daqui, perguntando de lá, questionando, analisando concorrência, abordagens anteriores, etc etc, todos aqueles quesitos que constróem um bom briefing. E o cliente entusiasmado, falando das suas lojas, do seu público-alvo, dos projetos, do tipo de brinquedo que vendia mais etc etc.

Quando dei por mim, já eram 13 horas. E o cliente nada. Porque isso, porque aquilo, porque aquilo outro. E o tio morto? 13 horas e 10. E o cliente blá-blá-blá. Bom, morreu, morreu. 13 horas e 30. O tio dele já enterrado e o cliente pero-que-si, pero-que-no.

Levantei.

- Lamento, seu Fulano, mas preciso sair. Como o sr. havia dito que precisava encerrar a reunião às 13 horas, impreterivelmente, marquei minha consulta com o médico homeopata e se eu perdê-la hoje, só daqui a um mês.

O cliente ficou primeiro sem palavras, estupefato com o meu atrevimento de sair antes. Depois, foi tomado de uma raiva arrogante que resultou na extrema imprudência de ele tentar me comandar como comandava os balconistas das lojas dele:

- Se eu não vou ao enterro do meu tio, você também não vai ao médico. Senta aí e continua a reunião!

Impassível diante daquela clara tentativa de exercício de poder machista-capitalista pra cima de moá, ignorei solenemente a sua ordem ridícula e coloquei a bolsa no ombro, me dirigindo à porta. Não sem antes responder a primeira coisa que me veio à goela, com a mesma intensidade com que rechacei aquele desaforo de ele achar que porque era cliente da agência possuía a minha alma.

- Acontece que seu tio está morto. E eu estou viva. E quero continuar. Com licença!

Saí quase batendo a porta, deixando minhas duas colegas com aquele dragão em iras, decerto a esbravejar injustamente cuspindo fogo pra cima delas.

Fui ao médico, fiz minha consulta, voltei pra agência e, surpreendentemente, não houve nenhum contra-ataque tampouco reprimendas do chefe.

Poucos dias depois, me liga o tal cliente, irreconhecível de manso, quase meu amigo de infância. Queria minha opinião sobre se valia a pena pagar X por um certo jingle. Ele achava caro. Bem impressionada com a qualidade do trabalho, argumentei que o jingle era tão genial que se pagaria em pouco tempo. Ele acatou. Dei sorte. Aquele jingle foi coadjuvante de boa parte da fama e fortuna de suas lojas naqueles idos dos anos 90, na generosa cidade de São Paulo. ( Graça Craidy)

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Chá verde faz bem ao coração.

- Um chá verde! - ele pediu ao rapaz do balcão, depois de tirar do bolso da camisa um par de óculos para perto, ajeitá-lo sem pressa no nariz e aproximar o rosto da caixa abarrotada de pequenas embalagens coloridas de camomilas, cidreiras, hortelãs e que-sé-yo que o italianinho rústico do Italian's lhe oferecia, com rara delicadeza naquele confim gelado de Soledade, num domingo sem nenhuma razão especial, a horas bestas de arredores meia-noite.

Aquela voz grave, mansa e carregada de andares outros que eu nem imaginava, mas podia adivinhar cansados, um pouco doídos, talvez, tocou histérica em algum ponto nevrálgico das minhas vísceras.

E soou boa, aguda, novidadeira em minha vida celibata, noviça e desnamorada, mais prenhe de soledad que a cidade escondida atrás da serra. Não pude evitar meu olho rápido e dissimulado procurando com urgência sem lógica o rosto de seu dono.

Chá verde?! Naquele ambiente rodoviária fim de feira, em meio a um bando de gente desinteressante atracada em gordurosos pastéis de carne reciclada do churrasco do meio-dia, coxas de frango empapuçadas de óleo velho e bolos pra inglês não ver?

Chá verde?! Naquele trânsito deselegante de passageiros com os olhos meio vítreos de sono, babados de ramela, descabelados, desengomados, arrastando sapatos com nesgas de papel higiênico trazido sem querer dos banheiros de limpeza duvidosa?

Parecia que eu tinha ouvido: - " leve-me ao seu líder!" O dono da voz só podia vir de um OVNI estacionado ali fora, junto ao anacrônico monopólio da Ouro e Prata e seus barrigudos motoristas de camisa azul- cobalto com indefectíveis palitos no canto da boca, sempre às vésperas de um arroto de comida deglutida sem mastigar, prisioneiros do taquímetro e do relógio de seus patrões tedescos.

O dono da voz era um homem estranhamente elegante, destoando do lugar. Magro, grisalho, cabelo cortado rente, com suaves entradas na testa, bem-vestido ao estilo casual, em torno de 1,75 m, moreno e barba adredemente por fazer, o que acentuava ao mesmo tempo seu mistério, estranheza e charme.

Enquanto eu - tosca como todos os outros - engolia às pressas meu sanduíche de salame com café, observava com o canto dos olhos o homem do chá verde, tranquilamente sentado sozinho em uma das mesas de fórmica, perdido em seus próprios pensamentos, como se não ouvisse nem visse aquele ir e vir noturno de formigas-cupinzentas ao seu redor.

Fumando lá fora, percebi de novo, parado na porta, olhando sem ver pro breu da noite, ele. O da voz. Aquilo já estava me perturbando. Que coisa! Que tanto um chá verde me causava tamanho algaravio, inquietação, desassossego de hormônios?

O estranho entrou no ônibus. Também entrei. E, sei lá o que me deu, talvez um despautério de estrogênio, um ressuscitamento adolescente, quando cruzei com o banco dele, um desaforo antigo que eu nem sabia que ainda sabia me fez olhar bem fundo nos seus olhos por um tempo curto que parecia um não-tempo, aquele minuto de 180 segundos, como quem escolhe agulha no palheiro, como quem elege a fruta mais doce, como quem aponta o dedo sem apontar, só com a força do querer.

Ele sustentou o olhar, mais pela curiosidade ou por educação, não sei bem, que por interesse de macho. Quase no ultimo segundo, ao perceber que eu não baixava o olho, hipnotizada, ele inclinou levemente a cabeça ao modo que se cumprimenta alguém quando a memória trai e não se recorda nome nem pessoa.

Fui para o meu lugar, no ônibus, dois bancos atrás do dele, à esquerda, na diagonal, de onde eu podia enxergá-lo de costas, já totalmente off, autista high-tech enfiado em um par de fones de ouvido, certamente a navegar por outros mundos.
Um gordo gentil, ao meu lado, que ocupava banco e meio com sua largura desabusada, nem piava, tímido, desacertado com seu tamanho, o que, aliás, tanto se me fazia, pois meu coração tinha desembestado a bater na veia do pescoço, esquisito, farejando novas taquicardias.

E viagem que te viagem. E o dono da voz mudo e com fones. E eu lá, desinquieta, atabalhoada, nem dormir conseguia.

Chegando a Porto Alegre, esperei todo mundo descer do ônibus, para me aproximar do homem que me imã. Ele também parecia não ter a menor pressa de apear. Quando ficamos ilhados no corredor, dei dois passos em direção à porta, parei em frente dele e, num arroubo de independência afetiva, minha mão se foi, sozinha, sem me avisar, até o seu rosto e acariciou sua barba, numa doce carícia improvisada.

-" Te conheço de algum lugar", falei, sorrindo, enleada, meu olho carregado de promessas e entregações do meu avesso enfeitiçado. Ele sorriu de volta, suavemente surpreso.

Meio encabulada com meu gesto intempestivo, desci.Fora do ônibus, entrevero de malas, gente se atropelando em frente ao bagageiro e eu, de longe, cuidava os passos do homem do chá verde.

O homem da voz e do chá já se havia dirigido ao ponto de taxi. As idéias se atropelavam em minha cabeça. Parada na calçada, eu o enxergava colocando a valise no banco de trás de um carro laranja. Só me vinha um pensamento: - " Nunca mais vou ver esse cara na minha vida!" Eu o filmava fechando a porta traseira do taxi e abrindo a da frente, pra entrar. Nunca mais! - eu me agoniava. Quando ele ia se sentar no banco do passageiro, deu por mim ali, na calçada, talvez o anzol dos meus olhos puxando os seus. Ao perceber que ele tinha, enfim, me visto, minha voz saiu de um golpe só, gritada, ambulância, emergência, tudo ou nada: - "Eu quero o teu telefone!"

Silêncio.

O mundo parou. Como se voltasse a cena de um filme, ele saiu do taxi e veio caminhando em slow-motion até onde eu estava e segurou minha mão, com extrema doçura e voz quase cochichada: - " é 9951..."

Nervosa, interrompi, remexendo na bolsa atrás de caneta e papel:-" Não vou lembrar! Eu sei que não vou lembrar!" Quanto mais ele me via ansiosa, mais baixo falava, naquele tom de amansa-louco, como quem trata com uma criança, acalmando-a: - " É fácil...Tu não vais esquecer. 99...todo celular é 99... 51....o código de Porto Alegre. Zero, zero e... "

Consegui anotar. Ele sorriu e, já no caminho de volta ao taxi, convidou:" - Me liga! Meu nome é Carlos." Era a noite de 16 para 17 de outubro de 2005. E começava ali uma inexplicável e duradoura história de amor. (Graça Craidy)

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Coração de merthiolate assoprado.

Como um pássaro, ele catou folhas secas e palhas de palmas caídas, seixos, cocos desfibrados, musgos, algas desidratadas do sol, restos de madrepérola e construiu um ninho para ela.

A praia era abandonada, só um velho pescador já meio cego do sal e seu viralata, ambos também desesquecidos do continente do outro lado, onde a vista alcança mas o coração não deseja mais. Ele ia lá vezenquando, sua alma e ele cruzando a distância. A ponte, sua lancha enferrujada.

"Minha", ele dizia. Gostava de pensar que a praia era só dele. Dele e do anjo que morava ali, na primeira onda, aquela que vai, faz de conta que não volta, vem vindo, vem, explode e acaba sempre lambendo o pé, submissa à sua sina escrava.

Com o anjo ele falava tudo que do lado de lá não tinha confiança em contar. Abria o guardadouro de suas dores e despejava, craquelando conchas, espedaçado em areias de mentira. Que às vezes queria largar tudo de mão e sumir. Que toda noite olhava o céu e não enxergava dia de amanhã. Que era malvado, sim, que que tava olhando? Era mau, sem desculpa de mãe! Que trazia desperdões virados em gelos sem jeito de garrar bem-querença de novo. Que tinha uma fome que crescia pra dentro cada de-manhã, gula doente de amar desmedido. Que queria se perder por aí. Que queria se achar por aí. Mas, donde valentia?

O anjo escutava em silêncio, com aquele olhar molhado metade sal meio mel de quem entende, de quem já viu de um tudo nesse mundão de Deus, que conhece cada dor de existir, cada dorzinhazinha, até aqueluma que merthiolate assoprado cura mais pelo assoprado que pelo remédio.

Por causa desse olhar, ele gostava do anjo. Tão bom poder falar assim sem carecer de palavra dita. Só falada com o dentro do coração. No entardecer, quando encilhava a velha lancha de novo e cruzava a água de volta ao seu destino, vinha desanuviado, tinha do anjo a cumplicidade da fé na bestagem do seu sonho, trazia o olho alumiado da teimosia boba de querer ser feliz aqui no reino da terra, mesmo, que não sabia se um dia iria para o céu, mais certo talvez quasemente que não.

Por isso, naquele dia, tinha tecido como um pássaro o ninho para a sua sabiá. Queria amá-la nua à luz da lua, fazendo rimas que nunca tivessem sido escritas ainda no seu corpo branco. Tinha urgências não cumpridas de percorrer com sanha e unha cada redondo da sua carne fêmea, se desorientar curva por curva, perder o rumo, a razão.

Mil pensados antes, tinha querido o desatino fatal de esquecer quem era ele, quem era ela, o suor colando suas almas e ocos em um único respiro encordoado de ais. Todos os seus pecados e males e bens e desaforos guardados, enfim cuspidos em salivas de língua e boca, sôfregos resgates de tantos quereres guardados, tantos não-poderes proibidos.

Pela primeira vez, ele não tinha medo de - em ganhando - perder. Que seja! Que fosse! ele gargalhava pelo avesso, estranhamente feliz. Ia entranhá-la na alma, tatuar-se dela para sempre com tinta de não apagar. Ainda que ela um dia partisse, herança eterna.

Depois dela, o quebranto quebrado. Nunca mais o medo de agarrar felicidade com a mão e enfiar a boca com gula de séculos, melar a cara no suco bom daquela maçã que antes só lustrava e punha no altar do olho, sacrário sem coragem. (Sempre maçãs, as chaves do Paraíso...)

Acordou no dia seguinte com o purri-purru de um sabiá no ouvido. Tateou no ninho. Viva alma. Nem deste mundo, nem do outro. Só o escorrido salgado da sua seiva leitosa umedecendo as folhas secas. E, no debaixo do coqueiro, o viralata do velho pescador, rabo abanando, solidário.
(Graça Craidy)
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Puk Puk, o nanico que cutucou o magnífico Reitor.

Eu adorava Jornalismo. Meu pai odiava. Quando soube que eu ia prestar vestibular pra Comunicação, ficou num desgosto só: - " Jornalista, minha filha, é tudo bêbado e boêmio! Eu sei o que eu tô falando... Cruzei com muitos deles quando estudei em Porto Alegre. Que é que tu vais te meter no meio dessa gente?"

Meu pai tentava me convencer, sem sucesso, a trocar minha vocação para as letras por Arquitetura, que lhe parecia muito mais adequado a uma moça de família. Quando passei no vestibular da Famecos, nem a mão o velho me apertou, um bico desse tamanho. João Craidy não era fácil, não. Embora - justiça seja feita - tirante a advertência sinistra, ele democraticamente nunca impediu a minha adesão à carreira.

Fazia tempo, aliás, que eu já posava de jornalista, me enfiando nas oficinas do jornal Correio Serrano, em Ijuí, a construir jornal na unha, lado a lado com os gráficos de mãos manchadas de tinta, no tempo do clichê e das frasezinhas montadas com letras de chumbo, palavra por palavra, coisa que a gurizada de hoje nem imagina o que é. Enfim, eu já tinha feito pelo menos dois jornais, antes de entrar na Faculdade: um no antigo ginásio, outro no curso Normal.

Na Borges: Roseli Jahn, Marilourdes Franarin, Graça Craidy, Déda Franarin, Paulo Boa-Nova, Sérgio Beira.
E quando entrei, não deu outra. Já no primeiro ano, tive a oportunidade de fazer o terceiro jornal da minha vida, enturmada com uma equipe inesquecível do Jornalismo: Paulo Boa-Nova, Sérgio Beira, Sérgio Gonçalves, Marilourdes Guterres Franarin, Kaytano Konze, Angélica Moraes, Ney Gastal, Bete Bina, Nisinha, Luiz Fernando Beskow, e mais alguns bem-vindos agregados de outras áreas, como Roseli Jahn, Antonio Carlos Bola Harres, Deda Franarin, Luiz Coronel, Tonho Valerio e os cartunistas Danilo e Batsow. Eu era a secretária de redação, a ogra-mor.

Essa equipe da pesada editou o famoso na época jornal Puk Puk, um nanico de formato meio-tablóide, com 30 páginas em média, valente até a 4ª edição, quando foi obrigado a se render ao mau-humor, à censura e às proibições da irmandade marista da PUCRS.

Tudo porque tínhamos publicado a coluna " Cada um na sua", onde entrevistávamos duas pessoas nos lados opostos de uma mesma questão: uma socialite e um mendigo, uma doente mental e um psiquiatra. E, nessa vez, um drogado e um médico farmacologista. Dois pontos de vista sobre drogas.

Foi ali que azedou. No discurso do médico. Sob a ótica da Farmacologia, ele se atreveu a afirmar que a maconha fazia menos mal que cigarro ou álcool. Pra quê? O magnífico reitor Irmão José Otão subiu nas tamancas e com aquela sua cara de gnomo de orelhas pontudas mandou nos chamar incontinenti na sala dele. Fomos, com trezentas pulgas atrás da orelha. Batata! Ele nos passou um pito federal, esbravejando que estávamos fazendo apologia da maconha e que o Puk Puk ficava, dali em diante, terminantemente proibido de circular dentro da PUCRS. E nem adiantou a gente alegar que a frase tinha autor, que não fomos nós que a inventamos. Necas!

Pensa que a gente se michou? Quá! A redação era na minha casa, na Salgado Filho, e antes tinha sido no escritório da Studio Imagem, na Borges de Medeiros, cedido gratuitamente pelo nosso querido amigo o jornalista Dilermando Torres. E outra vez, ainda, na própria redação da Zero Hora, onde nosso padrinho nº 2, o jornalista Armando Burd, generosamente nos deixava ficar de madrugada, quando os jornalistas profissionais iam embora. Na calada da noite, na Ipiranga, só restávamos nós lá - os aprendizes de foca - de donos dos salões gigantes da redação do seu Maurício Sirotsky, em alegre e saudável balbúrdia, lavorando no ofício do Puk Puk.

Aliás, é bom que se diga: a maior parte da tiragem do nosso Puk Puk era distribuída de graça. Ele se auto-sustentava só com os anúncios que o impagável Kaytano Konze vendia, e nós mesmos criávamos. E não eram anúncios da padaria ou da oficina do seu Valdir, não. Era anúncio dos bambambans da época. Fundo Crefisul de Investimento. Redes de varejo J.H.Santos e Hermes Macedo. A loja de moda jovem mais badalada de Porto, a Saco & Cuecão. A indústria Springer Admiral. A quentíssima do dial, Rádio Continental. A revenda VW Panambra, para citar alguns. Uma façanha estupenda, convenhamos, para uma garotadinha faceira de menos de 20 anos.

Pués, depois do pito do Irmão Otão, fechamos ainda mais um número do jornal, e nos postamos do lado de fora do campus da PUCRS, com a ajuda dos outros colegas da RP e da Publicidade, distribuindo-o aos alunos de todos os cursos, na entrada, ali na Ipiranga. Puk Puk, o maldito, continuou entrando na universidade. Ainda que pelas mãos de outros.

Aliás, nessa edição saideira, o Boa-Nova ainda provocou frisson na galera acadêmica colocando um palavrão no título de uma nota, onde elogiava o novo jornal Exemplar, do jornalista Ademar Vargas de Freitas, chamando-o de "Um puta jornal". Ohhh, uhhhh, nome feio, nome feio, que feio! Os caretas da universidade detestaram o superlativo ressignificado, onde já se viu? Isso, sem falar no desaforo de desobedecer às ordens expressas do Reitor, avinagrou para sempre a nossa relação com os padres, definitiva presença non grata.

Na época, sofri represálias também do Irmão Elvo Clemente, que ameaçou mais de uma vez contar ao meu pai lá em Ijuí que eu andava gazeando aula pra fazer jornal. - " Teu pai sabe disso, Maria da Graça? Que tu podes rodar por excesso de falta porque estás metida nesse jornalzinho?"

Pois o tal jornalzinho que o Irmão Elvo desprezava fazia furor. Publicamos grandes entrevistas. As mais interessantes, com o polêmico jornalista gaúcho Tarso de Castro, fundador do Pasquim, revelando, com todas as letras: "Eu não tenho moral!". E outra com o também polêmico redator publicitário paulista Neil Ferreira, o queridinho da publicidade de então, que se arrogou na manchete: "Minha cesta de lixo sustenta uma agência".

Agora, imagine tudo isso acontecendo em plena ditadura militar, na gestão Médici, o mais duro dos presidentes militares, repressor de toda e qualquer manifestação de rebeldia e pensamento próprio. A palavra " democracia" era sumariamente proibida de se falar. Liberdade, pior ainda. Perigoso até pensar nela. Quando a gente ousava proferir, olhava primeiro para os dois lados, pra ver se não tinha nenhum alcaguete por perto. E, mesmo não havendo ninguém, cochichava.

Em seu sonho de grandeza, os militares, além de combaterem o comunismo e a subversão e encasquetarem de conduzir o Brasil ao chamado progresso do capitalismo - nem que fosse na marra -, assumiram para si também a zeladoria da moral e dos bons costumes dos cidadãos brasileiros, principalmente dos jovens. De modos que a nós só restava calar e consumir.

Consumir, até que a gente consumiu. Pouco. Uma calça Lee aqui. Uma calça Lixo acolá. Nada parecido com o consumismo de hoje. Nem de longe. Mas, calar, só calamos depois de muitos metros de letras encordoadas. (Graça Craidy)

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Bundas na janela. Apenas R$ 1,99.

Mas que tanto penduram os lençóis manchados de sangue na janela, de novo, com marca de hímens recém-deflorados? Voltamos agora a práticas retrôs. Que barbarismo!

Quem foi que disse que precisamos dar satisfação do que rola em nossos lençóis ao povo, ao povoado, ao país, ao mundo? Onde é que está escrito que as pessoas têm que abrir suas janelas e sair berrando aos quatro ventos como, com quem e por que razão estão fazendo sexo em suas vidas?

Ando enjoada dessa exposição pública das práticas sexuais contemporâneas. Afinal, a quem interessa saber se fulana transa com fulano, se fulano transa com sicrano, se beltrana transa com fulana ou se está há muito tempo sem transar? A mí que!

Ultimamente parece que as pessoas estão obsecadas com escancarar o script barato de suas alcovas. É pai que declara publicamente que o filho, a filha é gay. É mulher que revela cirurgia da reconstrução de suas partes íntimas. É homem que ostenta viagras. É deputado que acusa filha de ministro de promíscua. É cantor ícone de sexo que depois de muito balançar sua pélvis para mulheres revela que sua pélvis balançava, mesmo, era para homens. É um tal de sair do armário que já dá pra montar miles de brechós de armário vazio. É um tal de mostrar os peitos novos de silicone. É um tal de bunda sacudindo morango, melancia e que-sé-yo! Que onda de melancólico desmistério!

Quer sair, entrar, rebolar, siliconar, no problem, baby. Mas não me venha alugar o meu cérebro com o seu assunto pouquinho de sustança. Por que eu, logo eu que nem sua parente sou? Não tenho nada a ver com isso. E os outros, eles também, o que têm a ver com isso? O que é por exemplo, que o seu Alcides do açougue tem a ver com isso? O Pedrinho do Telepizza? A Marildes, da secretaria do colégio? A Cleide manicure do salao aqui do bairro? A presidente Dilma? O diretor social do Clube de Bocha? O seu Donizete do jornal? A dona Teresa da mercearia? O Marcos da faculdade. O que é que, afinal de contas, os outros têm a ver com pintos, peitos, bundas e xoxotas alheios?

Como reparou o sociólogo Maffesoli, exubera no mundo hoje uma compulsão pornográfica por expor tudo, no desejo, segundo ele, de partilha. Um partilha que não quer mais apenas ser ouvida. Quer ser aceita, quer ser perdoada, quer ser aderida, curtida, comunidadizada, tietada, quer ser ungida. Uma partilha carente de aplauso, de claque. Sei lá, pra que esse exagero?

O que é que deu em todo mundo agora de querer se postar na vitrine feito as prostitutas de Amsterdã, ansiando pela exposição de suas genitálias, se entregando em holocausto de suas libidos, se rasgando em tiras de tristonhos voyeurismos?

Vejo nisso tudo um desejo exausto de si, alforria de pecados e temores, vontade de se mercadorizar, e ao se mercadorizar, livrar-se do fogo do inferno, do medo da morte, do vazio de ideais, vomitar catarse, cuspir consumo, não carecer mais de pensar.

- Fogo no rabo, dizia o povo, antigamente. - Fulana tem fogo no rabo, sentenciavam os fiscalizadores rigorosos dos baixios vicinais, daquele jeito que soía acontecer em aldeias. Bem como agora acontece, na aldeia mcluhana da internet e da TV ou no mundo mágico de Caras. Tudo muda pra continuar tudo igual.

Lembra quando Gonzaguinha cantava: "A gente quer viver a liberdade, A gente quer viver felicidade, A gente não está com a bunda exposta na janela Pra passar a mão nela"? Cantava prenhe de razão. Bunda exposta na janela pra vir alguém passar a mão nela é tudo, menos liberdade ou felicidade.

Respondeu um amigo meu, discretíssimo gay, justificando porque não se assumia perante sua família: "Na verdade acredito que as pessoas não devam saber coisa alguma da vida de ninguém", ele afirmou, sereno. "O tempo e energia que gastam com isso...", continuou." Um dia será tão cômica essa discussão sobre orientação, quanto os questionamentos no passado sobre canhotismo ou divórcio".

Enquanto não chega esse dia, senhoras e senhores, que tal já irem recolhendo suas bundas da janela? Que tal me excluírem do seu swing compulsório? Esse espetáculo já cansou.( Graça Craidy)

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O jenesequá de Dárcy Toledô.

Em frente à esteira de bagagens do aeroporto de Congonhas, aborrecida diante daquelas malas todas girando em câmera lenta, me passou pela cabeça a chispa de uma idéia pândega:- e se eu pegasse uma mala qualquer e saísse daqui e aproveitasse pra mudar de vida, de identidade, de gostos, de tudo?

Não sei se por entediada, não sei se por insatisfeita com minha vidinha sem emoções, foi pensar e fazer. De esguelha, escolhi uma maleta preta entre o desparrame de malas pretas que habitam esteiras de aeroportos, nem olhei a etiqueta e me dirigi com meu novo RG rumo à saída, cara armada de proprietária da bagagem, tomara que não me pedissem o canhoto.

Aproveitando o empurra-empurra do povo querendo se alforriar daquele último brete pós-viagem, fiz que não vi a pobre mocinha catadora de etiquetas, meu olhar entre o vago e o zureta-atormentado das gentes que transitam em aeroportos.
Coração na goela, abismada com o meu atrevimento, cruzei sem problema as portas automáticas do saguão, vontade insana de gargalhar bem alto, decerto já o espírito folgazão da nova personagem querendo se ajeitar pra caber dentro de mim, sua nova dona.

Nova ou novo? Eu nem sabia se a mala era de homem ou mulher. Meu Deus, e se eu tiver que virar homem? Sapatão? Diadorim?

Pé apoiado na mala, fumei um cigarro bem fumado, pra postergar o próximo passo. Táxi ou buzum? Seria minha nova personagem pessoa de fino trato e posses razoáveis ou meu destino agora viria com o rumo indicado no vidro dianteiro de um Mercedão?

Espiei com o canto do olho a etiqueta da mala: Darcy Toledo, dizia, em letra de forma, escrito num papel acartonado, com caneta azul. Caceta! Darcy tanto pode ser homem como mulher. Tinha um Darcy homem lá em Ijuí, lembro bem. E tinha, também, a mulher do Getúlio Vargas, Dona Darcy. Mulher, claro!

Baixei os olhos pra catar o endereço. Nem rua, nem bairro, nada. Só a cidade: Santa Rita do Passa Quatro. Deus do céu, agora sim, só vai passar três, porque não sei nem pra que lado fica isso…

Resolvi pegar uma lotação, a primeira que aparecesse no ponto de ônibus. E descer no fim da linha. Praça 14 Bis era o meu destino, informou o motorista cheirando a desodorante Avanço. (Antes Avanço que nenhum, pensei, fungando discretamente pra devolver ao ar viciado da perua o desagradável perfume barato de macho popular ostentado pelo jovem negro que dirigia a Besta como um idem.)

Dentro da lotação, só ele, eu, minha mala incógnita e um sujeito meio alcoolizado que resmungava entredentes algo do tipo “ é só alegria! é só alegria!”, o que me fez sorrir. Gosto de bêbados alegres. Ficam meio anjos, os bêbados alegres, como se se ameninassem de novo, permitidos de bobajar pelas ruas, sem medo dos perigos de gente grande.

Na curva da 9 de julho lá embaixo, fim da linha, desce o só-alegria e eu, dupla insólita na noite paulistana que recém havia tingido o céu.
Entonces que eu, Darcy, de sexo ainda ignorado, vivo no Bixiga? - me perguntei, entre divertida e intrigada. Aquelas bandas por ali eu já conhecia, de quando mudei pra Sampa. Tinha morado um ano na Major Diogo, boca brabíssima, mas que nunca me tirou pedaço, provavelmente porque sempre circulo pelos lugares de guarda baixa, mais pro curiosa que pro encagaçada.

Até que eu estava gostando de ser Darcy…Dar-cy, meu nome é Darcy! Será que eu deveria falar Darrrrrcy, com aquele erre enrolado de caipira paulista, ou Darrrcy, com o erre de mineiro, aquele com um leve corcoveio na língua, que se finge de carioca, mas na última hora retoma a compostura? Ou, quem sabe eu devesse assumir um quê meio estrangeirado, eu que falo línguas, poderia muito bem pronunciar paroxítona: Dár-cy, com ênfase no a, Dárcy Toledô. Belo nome, não? Com esse nome, eu poderia ser até uma crooner: - e com vocês, o charme, o aplomb, o jenesequá de Dárcy Toledô!
Taí: se eu abrir a mala e dentro só tiver vestido meio aputanado de mulher-dama, vou virar cantora de cabaré e fazer aquela japonesada punheteira babar no meu decote. Yen-yen-yen, míster!

Enquanto o bêbado feliz sumia num boteco de esquina da rua Rocha, eu subi a ladeira, decidida a me hospedar de novo no mesmo apart-hotel da Major Diogo que um dia me abrigou, nos idos de 84. Uns olhares compridos daqui, outros distraídos dali, outros apressados dacolá, acabei chegando ao São Paulo Suite Service, toda lampeira com minha maleta preta de Dárcy. A decadência do lugar era típica de filme B, quiçá C. Faltava um botão no uniforme do concierge, meu olho grudou no espaço solitário de sua túnica azul-marinho, construindo a ironia da metáfora: eu e o botão da sua roupa, dois sem-casa.

-Apartamento 604, Dona Darcy! – falou o sem-botão. E lá me fui arrastando as rodinhas da maleta, dispensando o carregador e seu olho pedincheiro de gorjeta. Nada de excessos, pensei. Sei lá o que essa Dárcy vai me aprontar de despesas…

No 6º andar, o corredor era um sumidouro de almas penadas. O carpete fedia a mofo misturado com perfumes variados. À medida em que ia arrastando minha maleta e passando pelas portas, eu podia catalogar os hóspedes pelo cheiro: Pinho, Mister N, Axe, Rexona, Pinho, de novo, Dove, Palmolive, Alfazema. Até chegar ao meu 604. Eca! Fedor de cândida, que - todo mundo sabe - é igual a olor de porra! Espero que seja só cândida, mesmo.
Janelas escancaradas. Arreda, desuruca, sai que este quarto não te pertence! - exortei, antes de me jogar na cama meio guenza, com sua suspeita colcha de chenile rosa desbotado. Quantos antes de mim teriam ali enroscado seus pés por frio ou solidão? Graça tinha virado Dárcy, mas as mil e uma perguntas da antiga cabeça continuavam iguais. Aposto que a Dárcy ia se lixar pra pés solitários em colchas de cheniles, ara!

Era chegada a hora do acareamento do crime da maleta. Isqueiro aceso, derreti o lacre de plástico laranja colocado pela companhia aérea nas alças do zíper da mala. Com as duas mãos, corri uma alça para cada lado e, finalmente, levantei a tampa dos tesouros misteriosos de Madame ou Messiê Dárcy Toledô de Santa Rita do Passa Quatro.

Passados três segundos de puro pasmo, o tempo do neurônio realizar sua sinapse e sair de cena, comecei a rir primeiro baixinho, depois em gargalhadas que me faziam dobrar a barriga e perder o ar, feito cachoeiras histéricas encadeadas umas nas outras. E me joguei de costas na cama, braços e pernas abertos, desacreditando do que tinha inventado pra mim.
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(FINAL 1)
Dona Dárcy, a Toledô, devia ser um sigiloso vendedor ambulante de sex-shop. Dentro da sua delicada maleta preta, dezenas de consolos de borracha, de todas as cores, formatos e tamanhos, jaziam inocentes e virginianamente arrumados, separados com critério uns dos outros por mimosas flanelas cor-de-rosa, onde se lia a marca do fabricante: Lovizol. Bem assim, escrito com zê. E tudo junto. (Graça Craidy)
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(FINAL 2)
E encontrei um terço. Ao lado do terço, um consolo de viúva, ao lado deste um recado: em caso de extravio desta mala, despache-a para o primeiro rio que encontrares. (Adriana Gragnani)
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(FINAL 3)
E saí correndo de lá, sem mala e sem nada, e fui retomar a Graça e a mala deixada no aeroporto. ( Águida Kopf)
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( FINAL 4)
Vazia. Abri, fechei, abri, fechei. Vazia. Aquele riso frouxo deu lugar à certo desespero. Procurei algo escondido nas laterais... nem um alfinete. Dar vida à Darcy Toledo era agora uma questão de honra. Abri gavetas da velha cômoda, esvaziei cabides do tosco armário, roubei todas as memórias largadas no 604. Foi duro fechar aquela mala tão cheia. No caminho de volta ao aeroporto lembrei que ainda não sabia quem eu carregava. ( Muza Clara)
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Doa-se criança. Sobra de inseminação.


Fiquei horrorizada com o recente episódio Escolha de Sofia tupiniquim. Deu no jornal que em uma maternidade de Curitiba um casal paranaense - segundo consta, de classe média alta -, decidiu rejeitar já na hora do parto uma de suas filhas trigêmeas recém-nascidas de gravidez por inseminação artificial, tentando abandoná-la no hospital para adoção. A escolhida para o sacrifício havia sido a menina mais fraquinha, com problemas no pulmão. Conforme depoimento dos funcionários do hospital, o pai teria justificado a decisão: não a levaria porque "só queria quem estivesse saudável" e, no seu entender, aquela criança ia dar muito trabalho.

Como assim, não a levaria? Quer dizer então que, como ele ejaculou num potinho de plástico, inspirado em enodoadas revistas de sacanagem, e como foi daquele recipiente sobejado de líquido leitoso que tiraram o espermatozóide para fertilizar o óvulo da sua mulher, é que as crianças nascidas dali passaram a valer como um saco de farinha, de batata, de feijão? Viraram mercadoria? E, como tal, tiveram automaticamente seu valor de mercado determinado pela lei da oferta e da procura, que reza: quanto mais houver a oferta de uma dada mercadoria, menor será o seu valor de compra e venda, menor será a demanda por sua aquisição. A família Adams curitibana queria no máximo dois filhos, a clínica de inseminação exagerou na dose e vieram três, qual o raciocínio do pensamento tecnológico funcionalista? Descarta o descarte. O que sobrar, lixo.

Como assim, dar muito trabalho? O que é que passa pela cabeça de um ogro desses, casado com uma ogra dessas, que pensa que pode mandar na vida e na morte, porque um dia mandou bem na manipulação utilitária do seu pênis técnico? Pensa que pode baixar o polegar como no coliseu romano só porque gastou uma fortuna na clínica de inseminação? Pensa que porque colocou dinheiro na intermediação, o produto é seu?

Eles que decerto partiram para a inseminação não movidos pela idéia de dividir o seu amor, o seu cuidado, a sua proteção. Mas, porque em seu egoísmo doentio, em sua vaidade vulgar acharam edificante contar com um mini-self, um espelhinho de si, continuação da sua existência medíocre, brinquedinho igual ao dos vizinhos, dos primos, dos irmãos. Todo mundo tem, eu também quero!

Tudo isso me horroriza e ao mesmo tempo não me admira, pois outro dia mesmo, aqui no blog, esbravejei contra uma clínica de inseminação que anunciava bebês no jornal como se fossem produtos, a tal de Insemine, de Porto Alegre. Elas, as clínicas de inseminação, aliás, são as primeiras dessa cadeia produtiva podre a tratar crianças como mercadorias. Deveriam ser punidas como cúmplices. Elas que, pra aumentar a produtividade, pra fazer valer o custo-benefício dos investimentos dos seus clientes, derramam embriões útero adentro como se fossem confeitos. Daí a explosão de gêmeos, trigêmeos, quádruplos, quíntuplos. Um crescei e multiplicai-vos desenfreado, carriado principalmente pelo crescei e multiplicai vossos dinheiros no banco.

As pessoas realmente estão ficando loucas, fetichizadas, tomadas pelo espírito da onipotência tecnológica, hipnotizadas com o falso poder do dinheiro e do consumo.

Bem que no capítulo 9 do livro Tela Total ( 2002), o filósofo francês Jean Baudrillard nos adverte que a violência biológica artificial acabaria gerando crianças inimigos dos adultos e adultos inimigos das crianças. Baudrillard profetizou um bizarro cenário familiar formado não mais por filhos e pais, mas por estranhos que não se sentem solidários tampouco descendentes.

Para o filósofo francês, a consequência dessa dessacralização do que ele chama de gênese familial sexuada, é a criança se transformar em um ser meramente " operacional, performance técnica e projeção identitária - mais prótese em miniatura do que verdadeiro Outro", ele ressalta, pessimista.

Parece, mesmo, que o monstro do espermatozóide e a monstra do óvulo não se sentiram nem solidários nem antecedentes das bebês que colocaram no mundo. Muito mais, se arvoraram a donos, proprietários, senhores, deuses com poder de vida e de morte sobre as infelizes que brotaram de seus desejos mesquinhos.

A notícia conta que a direção do hospital onde nasceram as meninas denunciou os pais-padrastos ao Conselho Tutelar, o qual os proibiu de levar quaisquer das meninas, tomando-as sob a sua proteção. Consta ainda que uma suposta advogada do casal já teria ido ao juizado para representar os seus clientes que agora - mais de dois meses depois - alegavam arrependimento e desejo de levar pra casa todas as três garotinhas, sem restrições.

Se eu sou juiz, não permitia. Nem a pau. Gentalha como esses dois não devia nem ter nascido. Quanto mais dado à luz. ( Graça Craidy)

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Da série Guardanapos: Que me importa esse bar?

Tenho me forçado tanto/ a ser corajosa/ a retrancar o pranto/ que me sinto às vezes vazia/ presa do meu próprio encanto/ de não ser bem a guerreira que queria./ Sou a feitora do meu triste canto./ Não me importa esse bar/ essa busca opaca/ esse chope que me entra como faca./ Que me importa esse bar/ se o que eu quero mesmo são raízes/ se minha ânsia verdadeira/ é a de um lar?/ Que me importa esse bar/ essa inútil trama/ essa caça embriagada/ essa rama/ se o que eu quero mesmo/ são as quatro patas de uma cama? /Perdi a viagem/ já não pertenço mais a essa fosca vadiagem/ cansei de mim antiga/ nessa postura moderna/ de ser mais forte, mais torta, mais viva,/ de ter mais sorte/ e, no final, pra quê?/ Pra me sentir assim,/ mais morta. ( 1987)

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Humor: Algumas mulheres são de Marte.


Todo mundo que me conhece sabe, eu odeio bancos. Mas, naquela segunda-feira, conformada com minha inelutável sina de correntista, engoli meus esbravejos e me fui, em busca de um banco que tivesse agência tanto em Porto Alegre - pra onde eu recém havia me mudado - como ali em Ijuí, onde morava minha mãe.

Entrei na Caixa Econômica Federal. Esperei, e esperei, e esperei. A fila, tartaruga. Desconfio inclusive que o povo remanchava fazendo daquilo um grande programa social para encontrar amigos, prosear, tomar cafe de graça, se sentir importante, ocupar o tempo. Paviozinho curto que sou, acabei abandonando o recinto.

Porta afora, bufando, encontro com meu cunhado, o gentleman da família, que me acalma e me sugere o Santander, antigo Sul Brasileiro Meridional, pertinho, do outro lado da casa da minha mãe, ao que tudo indicava, infinitamente menos cheio. Meu cunhado, um relações públicas nato, é muito conhecido na cidade. Não há lugar que ele entre onde não acene pra este, sorria pra aquele, cumprimente aquele outro. Ele tinha boas relações com a gerente do Santander, poderia acelerar o processo da minha abertura de conta, além de me abonar a assinatura, a probidade, todas aquelas coisas que é sempre bom você ter alguém que conheça os trâmites.

Sim, eu estava em ótima companhia para abrir uma nova conta em um novo banco em Ijuí. Quem não estava, na verdade, era meu cunhado. Mal sabia ele que depois de tantos anos de relacionamento fino e educado com aquelas pessoas sérias que passam os dias contando dinheiro, ele ia pagar um mico tão grande que anularia a sua vontade de circular comigo na cidade por um tempo sine die.

Sentados eu e ele em frente à gerente do Santander - uma linda moça vestida de terninho e tudo o mais, muito gentil e prestativa - eis que ela me pede RG, CPF, conta de luz, aquela coisarada que eles exigem, com medo que a gente fuja com o nosso próprio numerário.

Sem problemas. Pego minha bolsa. De dentro da bolsa, o porta-documentos. De dentro do porta-documentos, o RG. Logo a seguir, o CPF. Por fatalidade, na hora da maldita puxada da conta de luz, veio mais que a conta de luz.

11 horas da manhã de uma pacata segunda-feira na pacata cidade de Ijuí dentro de uma pacata agência do Santander, diante de uma pacata gerente do banco, eu puxo a conta de luz, mas o que sai, e cai, e aterrisa no chão ainda fazendo um voluteio no ar?

Nada menos que vários envelopinhos da Johnson's&Jonhson's, marca Jontex. A cara de espanto da gerente e do meu cunhado, me olhando os dois como se tivesse baixado ali uma recém-chegada nave espacial, é hilariamente inesquecível. Corria o ano de 2004 e eu já não era mais, há décadas, uma garota de 20 anos.( Graça Craidy)

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